Voltar para o MedTermo
Guia Editorial Pilar • Cardiologia & Semiologia

Interpretação de ECG: guia prático para estudantes de medicina

Um método sistemático, seguro e replicável em 7 passos para analisar qualquer eletrocardiograma de 12 derivações no plantão, no internato e nas provas de residência.

Tempo de leitura: 12 minutosNível: Básico a IntermediárioInclui: Simulador Interativo
Treino Prático em Tempo Real

Pratique no Simulador de ECG do MedTermo

Teste seus olhos com traçados reais dinâmicos, identifique arritmias e infartos com cronômetro e receba laudos comentados.

Abrir Simulador de ECG
1

Passo 1: Padronização e Calibração

Antes de qualquer interpretação, certifique-se de que o aparelho registrou o traçado na calibração padrão:

Velocidade do Papel:

O padrão internacional é de 25 mm/s. Isso significa que cada quadradinho de 1 mm no eixo horizontal equivale a 0,04 segundos (40 ms), e cada quadradão (5 mm) equivale a 0,20 segundos (200 ms).

Sensibilidade (Amplitude):

O padrão usual é N (10 mm/mV). A onda retangular no início do traçado deve ter 10 mm (2 quadradões) de altura. Caso esteja em N/2 ou 2N, amplitudes de complexo QRS devem ser corrigidas.

2

Passo 2: Cálculo da Frequência Cardíaca (FC)

A frequência cardíaca normal em repouso no adulto varia de 50 a 100 bpm (algumas diretrizes adotam 60 a 100 bpm). O método de cálculo depende da regularidade dos batimentos:

A) Ritmo Regular — Regra dos 300 / 1500

Localize uma onda R coincidente com uma linha grossa do papel milimetrado. Conte quantos quadradões existem até a próxima onda R:

FC = 300 ÷ (número de quadradões entre dois complexos QRS consecutivos)

Exemplo: 1 quadradão = 300 bpm; 2 quadradões = 150 bpm; 3 = 100 bpm; 4 = 75 bpm; 5 = 60 bpm; 6 = 50 bpm. Se preferir precisão milimétrica, use 1500 ÷ número de quadradinhos.

B) Ritmo Irregular — Método dos 10 Segundos (Fibrilação Atrial)

Quando o intervalo R-R for irregular (como na fibrilação atrial), conte o número de complexos QRS em uma extensão de 30 quadradões (equivalente a 6 segundos) e multiplique por 10. Alternativamente, se o traçado contínuo D2 longo tiver 10 segundos (50 quadradões), conte todos os QRS e multiplique por 6.

3

Passo 3: Avaliação do Ritmo (Sinusal vs Não-sinusal)

Para definir o ritmo como Ritmo Sinusal (origem fisiológica no nó sinoatrial), os 4 critérios clássicos obrigatórios são:

  • Onda P presente e morfologicamente positiva nas derivações D1, D2 e aVF.
  • Onda P obrigatoriamente negativa em aVR (vetor de despolarização atrial afasta-se do ombro direito).
  • Toda onda P deve ser seguida por um complexo QRS (relação 1:1 consistente).
  • Intervalo PR fixo e com duração fisiológica normal (120 a 200 ms).
4

Passo 4: Eixo Elétrico no Plano Frontal

O eixo médio do complexo QRS representa a resultante vetorial média da despolarização ventricular. O intervalo de normalidade situa-se entre -30° e +90°.

Derivação D1Derivação aVFQuadrante / DiagnósticoCausas Frequentes
Positivo (+)Positivo (+)Eixo Normal (0° a +90°)Fisiológico em adultos saudáveis
Positivo (+)Negativo (-)Possível Desvio à Esquerda (0° a -90°)BDPI, sobrecarga ventricular esquerda, BRE, gestação
Negativo (-)Positivo (+)Desvio à Direita (+90° a +180°)Sobrecarga ventricular direita, cor pulmonale, TEP, biotipo longilíneo
Negativo (-)Negativo (-)Extremo / Indeterminado (-90° a 180°)Taquicardia ventricular, troca de eletrodos de braços
5

Passo 5: Análise Minuciosa de Ondas e Intervalos

Onda P (Despolarização Atrial)

Duração normal: < 120 ms (menos de 3 quadradinhos). Amplitude: < 2,5 mm em derivações periféricas. Onda P apiculada em D2 sugere Sobrecarga Atrial Direita (P pulmonale); onda P bífida/alargada em D2 e índice de Morris em V1 sugerem Sobrecarga Atrial Esquerda (P mitrale).

Intervalo PR (120 a 200 ms)

PR curto (< 120 ms): Síndrome de Wolff-Parkinson-White (com onda delta) ou ritmo juncional.
PR longo (> 200 ms constante): Bloqueio Atrioventricular de 1º grau (BAV 1).
Fenômeno de Wenckebach: Aumento progressivo do PR até bloqueio de uma onda P (BAV 2º grau Mobitz I).
Bloqueio súbito: Intervalo PR fixo com bloqueio inesperado de onda P (BAV 2º grau Mobitz II — alto risco de BAVT).

Complexo QRS (< 120 ms)

QRS alargado (≥ 120 ms): Bloqueio de Ramo Direito (BRD — padrão rsR' ou "orelhas de coelho" em V1-V2 com S empastada em D1/V6) ou Bloqueio de Ramo Esquerdo (BRE — ausência de onda Q septal, R monomórfico alargado em D1, aVL, V5, V6 e QS largo em V1).
Sobrecarga Ventricular Esquerda (SVE): Critério de Sokolow-Lyon: S em V1 + R em V5 ou V6 ≥ 35 mm.

Intervalo QT e QTc (Duração da Sístole Elétrica)

Deve ser corrigido pela frequência cardíaca pela fórmula de Bazett (QTc = QT / √RR). Normal: homens < 450 ms; mulheres < 470 ms. QTc prolongado (> 500 ms) aumenta risco agudo de arritmia fatal por Torsades de Pointes.

6

Passo 6: Segmento ST e Síndromes Coronarianas Agudas

O ponto J marca a transição entre o complexo QRS e o segmento ST. Qualquer elevação ou depressão em relação à linha de base (linha do segmento TP) deve ser minuciosamente avaliada:

Critérios para IAM com Supradesnivelamento do ST (IAMCSST):

Supradesnivelamento persistente no ponto J em pelo menos 2 derivações contíguas:
• Derivações periféricas e V4-V6: ≥ 1 mm (0,1 mV);
• Derivações V2 e V3: homens < 40 anos ≥ 2,5 mm; homens ≥ 40 anos ≥ 2 mm; mulheres de qualquer idade ≥ 1,5 mm.

Paredes e Vasos Culpados:
• Anterior / Septal (V1-V4): Artéria Descendente Anterior (DA)
• Lateral Alta (D1, aVL): Circunflexa (Cx) ou ramo diagonal
• Lateral Baixa (V5, V6): Cx ou DA distal
Parede Inferior e Imagens em Espelho:
• Inferior (D2, D3, aVF): Coronária Direita (CD) em 85-90%
• Espelho recíproco clássico em D1 e aVL.
• Sempre rodar V3R, V4R, V7 e V8 em IAM inferior!
7

Passo 7: Arritmias Frequentes e Distúrbios Eletrolíticos

Fibrilação Atrial (FA)

Arritmia sustentada mais comum. Ausência de onda P identificável, linha de base irregular com ondas f finas e ritmo ventricular irregularmente irregular.

Flutter Atrial

Ondas Fregulares em "dente de serra" sem linha isoelétrica entre elas, nítidas em D2, D3 e aVF, tipicamente com frequência atrial fixa de ~300 bpm e condução AV 2:1 (FC ventricular de 150 bpm).

Hipercalemia (K⁺ elevado)

Onda T alta, simétrica, apiculada e com base estreita ("em tenda"). Em níveis mais graves: alargamento do QRS, achatamento da onda P e ritmo sinusoidal pré-parada.

Hipocalemia (K⁺ baixo)

Achatamento da onda T, infradesnivelamento de ST, aparecimento de onda U proeminente e pseudo-alongamento do intervalo QT (intervalo QU).

Pronto para testar seus conhecimentos em traçados reais?

No simulador do MedTermo, você tem acesso a casos dinâmicos interativos com traçados em alta resolução, feedback imediato e laudos cardiológicos comentados.